Antes de tratarmos de gramados, quadras ou pistas, vale uma pausa para celebrar outro tipo de performance de alto nível: a de Oscar Peterson, pianista canadense nascido em Montreal em 15 de agosto de 1925 e falecido em Mississauga em 23 de dezembro de 2007. Peterson é lembrado como um dos instrumentistas mais tecnicamente dotados da história do jazz, com uma carreira que atravessou décadas e continentes - um percurso que, em muitos aspectos, lembra a trajetória de atletas de elite que dominam sua modalidade por pura excelência técnica e constância.
A ascensão nos Estados Unidos e a parceria com Norman Granz
Em 1949, Peterson deixou o Canadá rumo aos Estados Unidos, onde se apresentou em um dos concertos organizados pelo lendário produtor Norman Granz no Carnegie Hall, em Nova York. Esse encontro marcou o início de uma parceria que definiria boa parte de sua carreira: Peterson passou a integrar a trupe itinerante Jazz at the Philharmonic, de Granz, excursionando pelo mundo e gravando extensivamente para os selos do produtor. Assim como um jogador que floresce sob o comando certo, Peterson encontrou em Granz o ambiente ideal para expor seu talento em escala internacional.
Influências, trio e parceiros de palco
O estilo de Peterson bebeu diretamente de Art Tatum e, sobretudo, de Nat King Cole. A formação clássica do Oscar Peterson Trio - piano, contrabaixo e guitarra - seguia o modelo do primeiro trio de Cole. O contrabaixista Ray Brown foi presença constante, enquanto o guitarrista Herb Ellis integrou o grupo entre 1953 e 1958. Com a saída de Ellis, o baterista Ed Thigpen assumiu seu lugar, atuando ao lado de Peterson entre 1959 e 1965 - uma reconfiguração que, como em qualquer equipe de sucesso, exigiu adaptação sem perder a identidade coletiva.
O virtuosismo que marcou época
A marca registrada de Peterson eram as cascatas de notas, um fraseado veloz e abundante que, mesmo quando soava displicente em fases iniciais, nunca deixava de ter swing. Nos anos 1970, ele passou a investir em concertos solo e em duetos, frequentemente ao lado do baixista Niels-Henning Ørsted Pedersen - formato que se revelou o mais produtivo para explorar seu talento e que o consagrou como um dos pianistas de jazz mais populares de sua geração. Os álbuns em dupla gravados entre 1974 e 1975 com trompetistas como Dizzy Gillespie, Roy Eldridge, Harry Edison, Clark Terry e Jon Faddis são lembrados pela calidez e sensibilidade raras.
Reconhecimento, obra escrita e os últimos anos
A carreira de Peterson rendeu oito prêmios Grammy, além do Praemium Imperiale concedido pela Japan Art Association em 1999, reconhecimento de peso no universo musical. Ele também deixou contribuições didáticas, como os livros "Jazz Exercises and Pieces" e "Oscar Peterson New Piano Solos", ambos de 1965, e publicou sua autobiografia, "A Jazz Odyssey: The Life of Oscar Peterson", em 2002. Um derrame em 1993 comprometeu o uso da mão esquerda e sua capacidade de locomoção, tornando suas aparições públicas mais esparsas - ainda assim, Peterson seguiu se apresentando até 2006, um ano antes de sua morte, prova de resiliência diante de limitações físicas severas.